sexta-feira, 17 de junho de 2016

A MAÇONARIA NA ÓTICA DE UM COMPANHEIRO MAÇOM



“Somente o homem, dentre todas as criaturas, pode mudar sua própria vida.
A maior descoberta dessa geração é que o ser humano, mudando as atitudes internas e sua mente, pode mudar os aspectos externos de sua vida!”
William James (1842-1910)





Muito, e há muito tempo se fala em Maçonaria. No mundo profano, a história, dependendo do ponto de vista do historiador propõe grandes feitos e épicos acontecimentos creditados a Maçonaria. Já outros, não tão lisonjeiros com a Ordem, a ela creditam as maiores atrocidades e despautérios. Mas então, seria a necessidade de ter sido uma sociedade secreta em alguns momentos, ou estar formada por pessoas ligadas a outras instituições ou mesmo outras ordens que necessitavam manterem-se no anonimato? Difícil identificar tais razões ou mesmo motivos. Hoje com os contratos constitutivos registrados nos respectivos órgãos de controle, a condição de secreta não se adéqua, mas permanece o segredo que tanto atrai as pessoas.
Creio ser importante a referência do contido no Preâmbulo da Maçonaria e como o próprio ritual apregoa, “A ser lido e explicado em Loja, frequentemente” (2013 p. 85). “A Ordem Maçônica é uma associação de homens esclarecidos e virtuosos que se consideram Irmãos entre si e cujo fim é viver em perfeita igualdade, intimamente ligados por laços de recíproca estima, confiança e amizade, estimulando-se, uns aos outros, na prática da virtude.” Manual de Procedimentos Ritualísticos e Ritual de Instruções do Grau de Aprendiz Maçom do REAA (2013 p.85).
Não menos importante o proposto no Escopo do Grau de Companheiro-Maçom que exalta: “se a Liberdade é o ideal do Aprendiz, que aspira a Luz, a Igualdade é o do Companheiro, para que possa solidificar os sentimentos de Fraternidade.” Ritual e Instruções Grau de Companheiro Maçom. (2004-2007 p. 9)
Segundo Rizzardo da Camino (2013, p. 43) “Três são as imposições da jornada em direção ao Companheirismo: Trabalho, Ciência e Virtude”, dessa forma iniciamos a caminhada do segundo grau, o de Companheiro Maçom.
Ainda engatinhando na Ordem, mas com caráter forjado por uma boa educação de família, escolas de excelente nível de ensino e oportunidades que se mostraram e se mostram ao longo de uma existência baseada principalmente em cinco pequenos conceitos que, a meu juízo, fazem a diferença:
·         Respeito: sentimento que leva a tratar alguém ou alguma coisa com grande atenção, profunda deferência, consideração ou reverência.
·         Disciplina: é o laço moral que liga entre si os diversos graus da hierarquia, nasce da dedicação pelo dever e consiste na estrita e pontual observância das leis e regulamentos.
·         Liberdade: constitui um direito natural do ser humano, proveniente da liberdade absoluta, praticada em seu estado de natureza que, paulatinamente, evoluiu para o estado civil, regido pelo contrato social idealizado por Thomas Hobbes (1588-1679), contemplando a vontade da maioria.
·         Igualdade: é a relação direta com os direitos fundamentais do cidadão e com a dignidade da pessoa humana, tendo como escopo o sentido de justiça, em estreita cumplicidade com os cânones do humanismo.
·         Fraternidade: tem características multifacetárias, de caráter permanente, abrangendo diversos aspectos da vida em sociedade. Uma palavra, um gesto, uma ação, a gratidão, o reconhecimento e o compartilhamento de ideias, dentre outras virtudes, são atos de fraternidade.
Ainda no grau 1, em consulta a um Mestre sobre por que não “praticávamos efetivamente a fraternidade”, a sábia resposta foi que: “a maçonaria prepara homens, não é um clube de serviços mas, que esses homens formarão tais clubes”.
Particularmente, trago do mundo profano a curiosidade do pesquisador pois, por muitos anos foi origem do meu sustento. Logo, fui procurar ler mais, estudar mais, aprender o sentido e o significado dos símbolos, das alegorias, da ritualística pra daí retirar os mais profundos ensinamentos visto ser a Maçonaria, além de um sistema de moral um filosofia social e espiritual.
De maneira em geral, no mundo profano, estamos vivendo uma época em que princípios básicos de moral e ética são simplesmente desconhecidos, ou destorcidos, ou deturpados, tendo em vista o colapso social que proporciona um aumento geométrico na violência, causado pela falta de oportunidade, pela impunidade e pelo exemplo de lideranças deformadas pelo vício da corrupção.
Diariamente erramos com pequenas falhas, e muitas vezes, procurando tirar uma vantagem ou da situação, ou de alguém ou de alguma coisa. Faz parte a índole do brasileiro alguns dizem. Certo ou errado o que é constatado, é que valores como respeito, disciplina, liberdade, igualdade e fraternidade entre outros são simplesmente desconhecidos e não estimulados nas gerações contemporâneas. Deformando assim o caráter do indivíduo que em algum momento vai assumir uma liderança e com tal deformação a conduzirá.
Assim, uma certa citação de Alexandre, o Grande, se mostra pertinente:
Quando, à beira da morte, Alexandre convocou os seus generais e relatou seus 3 últimos desejos:
Que seu caixão fosse transportado pelas mãos dos médicos da época;
Que fosse espalhado no caminho até seu túmulo os seus tesouros conquistados (prata, ouro, pedras preciosas...);
Que suas duas mãos fossem deixadas balançando no ar, fora do caixão, à vista de todos.
Um dos seus generais, admirado com esses desejos insólitos, perguntou a Alexandre quais as razões. Alexandre explicou:
Quero que os mais iminentes médicos carreguem meu caixão para mostrar que eles NÃO têm poder de cura perante a morte;
Quero que o chão seja coberto pelos meus tesouros para que as pessoas possam ver que os bens materiais aqui conquistados, aqui permanecem;
Quero que minhas mãos balancem ao vento para que as pessoas possam ver que de mãos vazias viemos. Alexandre, o Grande (356 a 323 a.e.c.)

Além de todo o desprendimento, Alexandre que segundo Plutarco, foi orientado na juventude por Aristóteles, desenvolvendo assim um particular e avançado raciocínio e uma preferência pelas ciências como a engenharia que está baseada na geometria. Na ótica de Da Camino, é uma das etapas a transpor pelo companheiro maçom “e cada uma simboliza uma parte da ciência, a saber: gramática, retórica, lógica, aritmética e geometria”. (2013, p.43)
Todas em geral e a geometria em particular, se nos mostra a arte de medir. É nesta etapa do desenvolvimento que o companheiro maçom inspirado na letra “G”, que representa a imagem da inteligência universal, desenvolve o conhecimento de medir todos os aspectos da natureza, pois esta é vital na principal construção que é o Templo Interior, símbolo da presença de LUZ em si mesmo, no seu corpo físico e mental, e consequentemente: espiritual.
Vários estudiosos se dedicaram ao estudo da Geometria e muitos acreditavam e procuraram comprovar a existência de um padrão ou proporção matemática, que na visão de Guimarães (2016) “implantada pelo Criador entre todas as coisas e fenômenos do Universo”. Assim como os gregos ao estabelecerem o Número de Ouro ou a Divina Proporção que é 1,618. Já no século XV, Da Vinci em sua obra Homem Vitruviano, descreve uma figura masculina nua, separada e simultaneamente em duas posições sobrepostas sendo a medida da cabeça até a linha dos pés dividida pela medida do umbigo até a linha dos pés é igual ao número 1,618 também conhecido pela letra grega “Φ” (fi). Em alguns casos o desenho e o texto são chamados de Cânones das Proporções.
Se mostra claro a estreita ligação entre a Geometria e a Aritmética pois surge na visão de Da Camino (2013, p. 124) “por intermédio das joias depositadas no altar: compasso e esquadro auxiliadas pela régua”, é ela a responsável pela construção de toda obra edificada. E é tamanha a importância dessa ciência-arte que no segundo grau o maçom denomina o G.∙.A.∙.D.∙.U.∙., como o Grande Geômetra, analisando com profundidade a letra “G”.
Por outro lado, conforme Baigent “as instituições são tão virtuosas, ou culpadas quanto forem os indivíduos que as compõem”. (2013, p.17)
Se é aqui, em nossa ágora, que encontraremos a possibilidade de um desenvolvimento individual, de tal forma a nos tornarmos pessoas mais identificadas com a Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Sendo a Maçonaria é uma sociedade de homens livres e de bons costumes. E, que lapidar a Pedra Bruta tem como significado o desenvolvimento individual, o aprimoramento do Templo Interior, o despertar da Iluminação. Se a base que sustenta o edifício é a Tolerância para que Irmãos indistintamente se reconhecem como tal, não estará faltando sairmos da teoria e efetivamente praticarmos o que aprendemos e apregoamos na sua forma mais simples, no cotidiano de cada um?
Hoje, me identifico muito com a alegoria da escada em caracol, na qual um jovem, “tendo passado a adolescência como Aprendiz e a virilidade como Companheiro, tenta, ousadamente, avançar e subir, apesar do caminho tortuoso e a subida difícil, na esperança de, pela diligência e pela perseverança, chegar a idade madura como um Mestre esclarecido.” (GORGS, 2004-2007 p.66)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAIGENT, Michael. O Templo e a Loja: o surgimento da maçonaria e a herança templária. 2ª Ed. São Paulo: Madras, 2013.
D’ELIA JUNIOR, Raymundo. Maçonaria 50 Instruções de Companheiro. São Paulo: Madras, 2015.
DA CAMINO, Rizzardo. Rito Escocês Antigo e Aceito. Grau 1º ao 33º. São Paulo: Madras, 2013.
GUIMARÃES, José Maurício - M.'.I.'. A.'.R.'.L.'.S.'. Inconfidência 47 – Grande Loja Maçônica de Minas Gerais, Brasil.
Blog disponível em: www.zmauricio.blogspot.com Acesso em 12/04/2016 23h30min.
MANUAL DE PROCEDIMENTOS Ritualísticos e Ritual e Instruções do Grau de Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito. Porto Alegre: GORGS, 2013.

RITUAL E INSTRUÇÕES do Grau de Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito. Porto Alegre: GORGS, 2004-2007.

sábado, 21 de maio de 2016

A MAÇONARIA SOB A ÓTICA DE UM NEÓFITO


          Há exatos 41 anos, também ingressando em uma escola iniciática ao ouvir o toque do clarim convocando para uma reunião de oficiais, sempre sentia uma grande ansiedade e o pulsar do corpo como um todo. Pois, o comandante da unidade onde prestava serviço, tinha como hábito escolher dentre os tenentes em início de carreira um, para que, em nome do comando saudasse o aniversariante, o visitante, enfim, o homenageado em questão. Assim agia para proporcionar uma oportunidade ao aprendiz de se preparar para falar em público, para liderar sua tropa, como exemplo a ser seguido por seus comandados. Ali morria o adolescente irrequieto que, renascia como um soldado cumpridor do seu dever cívico, de amor e dedicação à Pátria e as instituições da Nação, que viveu por mais de dez anos na vida da caserna, procurando sempre o aperfeiçoamento pessoal e profissional para cumprir as diferentes missões que lhe foram designadas.
Hoje, mesmo após longo tempo em salas de aula, muito como aluno, algumas vezes como professor ou palestrante de alguma área do conhecimento, mesmo já tendo renascido pelo menos outras duas vezes, ainda sinto o mesmo frio na barriga. Mas, a ansiedade se faz substituída pela expectativa; o pulsar do corpo pela sintonia da energia aqui emanada.
Posso afirmar que já se passaram mais de 25 anos desde as primeiras sondagens até o momento de poder aceitar o convite e efetivamente participar da fraternidade.
Como todo ritual de iniciação e seguindo a Lei da natureza, pois todo ser, antes de ver a luz, tem que se formar, enclausurado em ambiente de recolhimento. Só depois de ver a luz é que se inicia a sua aprendizagem e aperfeiçoamento, mercê de um processo contínuo de aprimoramento e aperfeiçoamento em busca da Iluminação, do resplandecer do sol interior. Assim, uns passam pelo ovo, pelo casulo, outros pela semente, pelo ventre materno. Também para ser Maçom, ainda profano, antes de ser iniciado passei pela Câmara de Reflexões, o "útero" da Loja mãe.
Mergulhado na escuridão da ignorância, escrevendo um testamento e respondendo as perguntas propostas, me senti morrendo para mais uma vida, mas, crente na reencarnação com a lembrança consciente das vidas anteriores me pus a meditar sobre os desafios que estariam prestes a acontecer. Tomando como padrões, símbolos existentes naquele ambiente: o pão e a água; o enxofre, o sal e o mercúrio; a bandeirola "Vigilância e Perseverança"; os ossos, a caveira, a foice e a ampulheta; a sigla em latim: V.I.T.R.I.O.L., que significa Visita o Centro da Terra, Retificando-te, encontrarás a Pedra Oculta (ou Filosofal). O que filosoficamente ela quer dizer: Visita o Teu Interior, Purificando-te, Encontrarás o Teu Eu Oculto, ou, "a essência da tua alma humana". É o símbolo universal da constante busca do homem para melhorar a si mesmo e a sociedade em geral.
Tal simbologia fundamenta-se toda no Hermetismo: trata-se da primeira fase da Grande Obra, a Putrefação, que não ocorre somente no interior do Ovo Filosófico, criação que não é apenas inerente ao homem, mas também e, principalmente, à natureza operante.
A Câmara de Reflexão, dessa forma, faz às vezes de útero, onde se dá a maravilha da criação, imediatamente antes da iniciação, que é o nascimento, o conhecimento da luz. A grandiosidade da criação maçônica, que ocorre nessa câmara fechada e quase totalmente escura, é análoga à iniciação dos essênios, identificando a união de Deus (LUZ) com a energia e a iluminação interna, como o princípio de toda a vida mística.
Durante o ritual e após prestar o primeiro juramento onde o adocicado passa a amargo e a expulsão é irremediável são iniciadas as viagens que culmina com o nascimento do neófito quando o Ven.·. M.·.  determina que a LUZ seja dada ao neófito. Momento em que, ainda com a visão um tanto embaralhada, nos deparamos com espadas apontadas em nossa direção.
Ao ser conduzi até o Ir.·. 1º Vig.·. onde é recebido o avental e apresentada a Pedra Bruta que é um dos vários elementos que decoram internamente uma loja maçônica. Que, simboliza as arestas da personalidade que o maçom deve aparar ou limar, para poder se aperfeiçoar. Estas arestas são os sentimentos como o ciúme, a perfídia, a vingança, os vícios, e outros mais, pecados da moral e dos bons costumes que como maçom jura combater. Aparando desta forma as suas arestas, o maçom está a tornar-se mais perfeito e mais polido, representado simbolicamente pela Pedra Cúbica.
Esculpir a si mesmo é o trabalho de tornar-se esclarecido. A metáfora da pedra se encaixa com a constituição do Templo, pois sem uma pedra trabalhada não é possível construí algo com ela.
Como todo o neófito e, no meu caso, altamente imperfeito, tenho procurado dedicar-me a algumas leituras, pesquisas e pequenos estudos, visando além de estar maçom, ser maçom o que em minha percepção inicial é o mais importante. Pois tudo o que é dedicadamente ensinado ao aprendiz por seus mestres tanto serve para suas atitudes em loja, como para as relações na sociedade em que participa e principalmente na evolução do ser interior, diuturnamente esculpindo e lapidando o templo de forma a ser distinguido por suas atitudes em loja ou fora dela.
Tendo recebido meu nome maçônico, passei a utiliza-lo com a felicidade de quem consegue galgar um degrauzinho da escada de Jacó, mesmo que mínimo, mas importante por ser um crescimento. Na oportunidade um dos IIr.∙. propôs que fosse apresentado uma explicação para o nome Immanuel.
Bem, o que posso dizer é que o nome Immanuel tem sua origem no hebraico arcaico cujo significado pode ser entendido como “Im” que significa: dentro; “man”, que significa: homem e “el” cujo significado mais próximo é “ser luminoso” ou “ser de LUZ”, assim entendido como aquele que tem em seu interior um “ser luminoso”. Outra interpretação não muito diferente também com origem no hebraico arcaico onde “imanú” significa: conosco e “el” significa: “Deus”. Citando Mateus 1:23 “Deus está nos corações dos homens puros”. No Antigo Testamento, nome pelo qual Isaías designa o Messias, proclamando: “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará a luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel”.
Pela numerologia, o nome Immanuel ou Emmanuel tem como número da sorte o número 3. É uma pessoa romântica e sedutora. São seres alegres, extrovertidas e sociáveis, transmitem muita confiança no amor e na vida em todos os aspectos.
Outro aspecto observado parte do médium brasileiro, Chico Xavier que atribuiu a Emmanuel a maior parte da autoria dos seus livros psicografados. Das suas obras, destacam-se os ensinamentos da doutrina espírita, os ensinamentos bíblicos na visão espírita. Emmanuel, que significa "Deus conosco", se manifestou a Chico Xavier na década de 20, porém as psicografias se iniciariam a partir de 1930. Segundo as palavras de Chico Xavier: "Emmanuel foi um verdadeiro pai, um mentor querido que com carinho tolerou todas as minhas falhas".
Em sua obra O Livro dos Espíritos que é o primeiro livro sobre a Doutrina Espírita, publicado pelo educador francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, sob o pseudônimo Allan Kardec, trata a qualquer divindade como “Emmanuel”.
A escolha do nome Immanuel cujo significado pode ser entendido como “aquele que tem dentro de si um ser luminoso” conforme Gardiner e Osborn na obra Priorado Secreto (2009) serve como bússola a apontar à direção, como farol a mostrar o caminho, como mantra a fazer caminhar em direção ao aprimoramento em busca da iluminação interior, o que os mesmos autores chamam de kundalini.
Ao agradecer o impressionante acolhimento por parte de todos os IIr.·., firmo a determinação de não medir esforços em busca de meu aperfeiçoamento e assim, com a prática da virtude ser digno de estar entre vós.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

SER TERRA FÉRTIL

O mestre abriu as abas do lenço delicadamente, e o conteúdo não deixou de causar surpresa: eram sementes.
Nenhum saber – disse o mestre com calma e autoridade – pode ser passado de forma pronta ou finalizada. O conhecimento é sempre, e sempre, uma semente. E, da mesma forma que a semente, o conhecimento precisa do agricultor, que é aquele que planta, rega e aduba, mas precisa mais do que tudo, da terra em que é colocado. Sem chão o conhecimento não se desenvolve, não cresce, não vira árvore. E, ser chão, ser terra fértil, é trabalhoso, é pesado. O trabalho da terra é sempre o mais pesado, pois ao contrário do agricultor que tudo tira do ambiente, a terra tem que tirar de si mesma os nutrientes para que o saber vire conhecimento e este venha a ser, após longos e longos anos, sabedoria. Por favor, peguem cada um, uma das sementes. O papel delas é o de lembrá-los do que agora digo, mas também é de dar esperança. Pois toda a semente, por mais insignificante que seja, tem dentro dela uma planta adulta. Ela está lá, bem no fundo, latente e forte. O papel da semente é somar-se a terra e não de lutar contra ela.

Texto adaptado de Nikelen Witter (2012).

quarta-feira, 23 de julho de 2014

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES - CONFLITOS DO ORIENTE MÉDIO II

Aspectos geopolíticos: Local – Assíria, Mesopotâmia, Babilônia, Iraque, Irã, Jerusalém. Povos – Assírios, Medos, Persas, Macedônio, Hebreus. Datas – 560 a.E.C. (antes da era comum) na visão cristã a.C. (antes de cristo)

Segundo Heródoto, o avô de Ciro, Astíages, último rei do Império Medo, teria sonhado que seu neto destruiria o reino e dominaria toda a Ásia. Astíages então mandou que seu serviçal pegasse a criança e a matasse nas montanhas. Harpago, na época o serviçal, ficou com pena de Ciro e entregou a criança para um pastor, que acabou cuidando de Ciro por um tempo até que ele teve plena consciência de sua linhagem real.
A mãe de Ciro, Mandane, era filha de Astíages, mas seu pai, Cambises, era um nobre que controlava a Pérsia, região onde hoje fica o atual estado do Irã e era, na época, um reino submisso aos medos. Quando Ciro chegou ao poder na Pérsia, em 559 a.E.C., ele uniu-se a Harpago e comandou uma revolta contra Astíages.
Harpago desejava a vingança contra Astíages, já que o rei, sabendo do não cumprimento da ordem por parte de seu serviçal, mandou matar o filho deste. Derrotado, Astíages foi mandado à presença de Ciro para julgamento, mas o neto acabou perdoando o avô. Sem um rei para fazer frente à ocupação, Ciro invadiu Ecbátana, capital da Média, e tomou o poder da vasta área já controlada pelos medos.
Ciro, ao controlar toda a região antes submissa aos medos, fundou o Império Persa e passou a reinar em uma vasta área que ia da Capadócia, no oeste, até a Ária, a leste, também fazendo fronteira com os montes Cáucasos ao norte e a Assíria e a Babilônia ao sul.
Mas Ciro não ficou sentado em seu trono esperando os inimigos invadirem o império e tumultuarem o ambiente interno, além de aguardar o crescimento populacional de seu povo que, na época, era um assunto que já exigia muita atenção do rei.
Ciro partiu para as campanhas de conquista, buscando terras para ampliar cada vez mais as plantações e os espaços para criação de gado e outros animais além, claro, da busca por submeter novos povos ao pagamento de impostos. A primeira grande conquista militar de Ciro aconteceu em 546 a.E.C. e foi na região da Lídia e das colônias gregas da Ásia Menor, territórios que os medos tentaram conquistar por décadas sem sucesso. Depois Ciro conquistou a região do Turquestão, a leste, expandindo ainda mais o território. Em 539 a.E.C. Ciro conquistou a região da Babilônia e o fato ajudou suas relações com os fenícios e os hebreus, povos que viviam sob o domínio dos governantes da Babilônia. Ao conquistar a região, Ciro teria proclamado:
“Eu sou Ciro, rei do mundo, grande rei, rei legítimo, rei de Babilônia, rei da Suméria e de Acade, rei das quatro extremidades, filho de Cambises, grande rei, rei de Anzã, . . . descendente de Teíspes . . . de uma família [que] sempre [exerceu] a realeza.”*
Ciro foi um imperador habilidoso tanto na conquista como na administração e manutenção dos povos conquistados. Seus exércitos usavam táticas de invasão com apoio de arqueiros e cavaleiros. Os soldados invadiam as cidades e fortalezas em blocos, dificultando a defesa dos inimigos.
Após a conquista, Ciro procurava manter os líderes locais em seus devidos cargos administrativos, demonstrando piedade para com os vencidos e não proibia o culto do povo, ou seja: havia muita tolerância religiosa. Se traçarmos um paralelo com os dias de hoje, podemos observar que na região a tolerância religiosa é bem pequena, quase nula, diferente do tempo em que os persas dominavam. O Império Persa cobrava impostos dos povos dominados e estes sim deveriam ser pagos com frequência religiosa. Alguns líderes eram levados para trabalhar em posições superiores na hierarquia persa. Cada região ficava sob o comando de um sátrapa, que era o principal governante local – uma espécie de secretário-geral, ou até mesmo um governador da região -, e muitos deles eram os próprios reis locais, que Ciro designava como sátrapa. Esta decisão fazia com que os povos conquistados tivessem relativa autonomia interna, mesmo dominados pelos persas. Para impedir a corrupção, Ciro ordenou que fosse montada uma grande rede de espionagem, que era formada por funcionários do governo. Eles ficaram conhecidos como “os olhos e ouvidos do rei”. Esta organização de cobrança de impostos, administradores locais e funcionários estatais auxiliando o império mesmo nas localidades mais distantes deu tão certo que séculos depois o macedônio Alexandre, o Grande conquistou a região e continuou utilizando a estrutura administrativa dos persas. Ciro foi também o responsável pela libertação dos judeus do cativeiro da Babilônia, iniciando uma série de acontecimentos que culminaram com a reconstrução de Jerusalém.
Ciro morreu em 530 a.E.C., no meio de uma batalha contra os massagetas, uma tribo semi-nômade que vivia na região próxima ao Mar Cáspio e o Mar de Aral. Ciro foi aconselhado por Creso, ex-rei da Lídia, a atacar os massagetas, pois suas forças poderiam, um dia, ameaçar as fronteiras do Império Persa. Então Ciro enviou uma comitiva diplomática para oferecer uma proposta de casamento para a rainha dos massagetas, Tomiris, que não foi aceito. Ciro então invadiu o território dos massagetas e foi desafiado para uma luta honrada pela rainha. Só que ao saber da pouca familiaridade dos massagetas com o vinho, Ciro deixou poucos homens, muita comida e muito vinho em um acampamento e simulou uma fuga. Um dos generais de Tomiris – e que também era seu filho – Spargapise, invadiu o acampamento, matou os poucos soldados que ali estavam e deixou seus subordinados aproveitarem a comida e a bebida deixada pelos persas.
Os soldados massagetas, bêbados, foram presa fácil para os soldados persas que retornaram no meio da noite. Spargapise, envergonhado com a derrota, cometeu suicídio. A rainha Tomiris, jurando vingança pela morte do filho, liderou seu exército em uma grande batalha contra os persas. Após uma violenta batalha onde morreram muitos persas, Ciro também caiu frente ao exército massageta. Tomiris então pediu que a cabeça de Ciro fosse trazida até ela, que pegou-a e colocou dentro de uma bacia com sangue. Segundo a própria rainha, aquilo era para “matar a sede de sangue do rei persa”. Uma outra história conta que Ciro morreu serenamente em Pasárgada, cidade que era a capital do Império Persa sob o reinado de Ciro. Na verdade existem diversas versões da morte de Ciro, e muitas relatam a derrota militar das tropas persas que acompanhavam o rei e sua morte em batalha. De qualquer forma, se morto enquanto lutava, Ciro teve seu corpo resgatado por soldados persas e hoje descansa em uma tumba nas ruínas de Pasárgada, que estão em pé até hoje. O filho de Ciro, Cambises II, assumiu o lugar do pai e continuou os planos de expansão do Império Persa. Mas toda a região só teria novas mudanças realmente significativas sob o reinado de Dario, o próximo rei persa.
*Texto contido no Cilindro de Ciro, artefato arqueológico que serviu, na época, como um decreto do imperador. Foi encontrado na região da Babilônia e hoje em dia está em exposição no Museu Britânico de Londres.

Fontes: HAMMOND, N.G.L..O Gênio de Alexandre o Grande. São Paulo: Madras, 2005. HOLLAND, Tom. Fogo Persa. Rio de Janeiro: Record, 2008.

terça-feira, 22 de julho de 2014

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES - CONFLITOS DO ORIENTE MÉDIO I

Aspectos geopolíticos: Local – Assíria, Mesopotâmia, Babilônia, Iraque, Irã, Jerusalém. Povos – Assírios, Medos, Persas, Macedônio, Hebreus. Datas – 670 a.E.C. (antes da era comum) na visão cristã a.C. (antes de cristo)

Nabucodonosor II governou durante 42 anos o Segundo Império Babilônico. Ficou famoso pela construção dos Jardins Suspensos da Babilônia e pela destruição de Jerusalém e seu Templo.

Nabucodonosor II ou Nebucadrezar (632 a.E.C. a 562 a.E.C.) é o filho e sucessor do Rei Nabopolasar, que fundou o segundo império babilônico (ou caldeu), sobre as ruínas do Império Assírio. Seu nome em hebraico, nebukadrezzar, é a transliteração do acadiano, Nabu-cudurri-utsur, que talvez signifique “Nabu (deus) protegeu os direitos de sucessão ou minha herança”. No latim temos Nabukodenesor. Deste vem o nome em português. Houve dois reis babilônicos com esse nome: Nabucodonosor I, que reinou entre 1146 e 1123 a.E.C.; e Nabucodonosor II, a figura mais famosa, que é mencionado na bíblia, que reinou de 604 a 562 a.E.C..
Após a morte do rei assírio Assurbanipal, em 631 a.E.C., o Império Assírio entrou em declínio, devido às revoltas dos povos dominados. O rei caldeu Nabopolassar adotou uma política expansionista, com o intuito de recuperar o antigo poder da Babilônia. Auxiliado pelo rei dos Medos, Ciaxares, combateu a Assíria e derrotou o seu exército, em 616 e 615 a. E.C., em Arapka. Logo após, tenta apoderar-se de Assur, sem êxito, e alia-se definitivamente aos Medos. Em 612 a. E.C. conquistou e arruinou Nínive.
Os territórios conquistados foram partilhados entre os dois monarcas, conseguindo a Babilônia reconstruir o seu antigo império. Durante o reinado de seu pai, Nabucodonosor fora o príncipe-herdeiro da Babilônia.
Nabucodonosor casou-se em 612 a.E.C. com Amitis (Amu-hia), filha de Ciáxares, rei da Média. Teve pelo menos três filhos: Amel-Marduque (também chamado Evil-Meredoque), que o sucedeu no trono, Marduque-Sum-Usur e Nabu-Suma-Lisir.
Continuando sozinho as suas investidas, Nabopolassar ordenou a seu filho Nabucodonosor a conquista da Síria. O que resta do Império Assírio sucumbe definitivamente em 605 a.E.C. Nabopolassar empenhou-se em reprimir os intentos egípcios de restabelecer seu império no Oriente Próximo e após uma série de lutas, seu filho, Nabucodonosor, derrotou totalmente os egípcios na Batalha de Carchemish em 605 a. E.C.. Nabucodonosor conquistou totalmente Hati, ou seja, a Síria e a Palestina, conforme comenta o historiador Flávio Josefo. Nabucodonosor estava ocupado em guerras, quando seu pai faleceu; então voltou e foi coroado rei. Durante o reinado de Nabucodonosor, que durou de 604 a.E.C. a 562 a.E.C., o Segundo Império Babilônico viveu o seu período mais glorioso. Deu continuidade à época de prosperidade e hegemonia babilônicas.
Nabucodonosor II expandiu seu império, conquistando boa parte da Cilícia, Síria, Fenícia e Judeia. Líder militar de grande energia e crueldade, aniquilou os fenícios, derrotou os egípcios e obteve a hegemonia no Oriente Médio.
Investindo pesado no seu exército, lutou por mais de trinta anos para conquistar os territórios da Assíria, Fenícia, parte da Arábia, Palestina, Síria e Elam, tornando-se a maior liderança do Oriente Médio da Antiguidade.
Em 604 a.E.C., ele começou a receber tributos da Síria, Damasco, Tiro e Sidom. Jeoaquim, rei de Judá, foi seu vassalo por três anos (II Rs 24:1; Jr 25:1). Em 599 a.E.C. Nabucodonosor derrotou as tribos árabes de Quedar e do leste do rio Jordão (Jr 49: 28 – 33). Em 598 a.E.C. conquistou Jerusalém e levou em cativeiro seus habitantes ( II Reis cap. 25 e Daniel cap. 1). Entre os anos 587 a.C. e 586 a.C., os exércitos de Nabucodonosor destruíram Jerusalém. Tanto as muralhas da cidade quanto o Templo foram destruídos. O resto da cidade ficou em ruínas durante pouco mais de um século. Os sobreviventes são conduzidos para Babilônia.

Fontes: HAMMOND, N.G.L..O Gênio de Alexandre o Grande. São Paulo: Madras, 2005. HOLLAND, Tom. Fogo Persa. Rio de Janeiro: Record, 2008.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O Xamã

HISTÓRIA DAS RELIGIÕES
O Xamã
O xamanismo é um termo genericamente usado em referência a práticas etnomédicas, mágicasreligiosas animista, primitivas e filosóficas (metafísica), envolvendo cura, transe, supostas metamorfoses e contato direto entre corpos e espíritos de outros xamãs, de seres míticos, de animais, dos mortos. Muitas de nossas tradições, crenças e simbologias arquetípicas parecem ter evoluído do xaminismo primitivo.
Segundo Gardiner e Osborn (2008), a palavra xamã vem do russo tungúsino, a língua falada pelos tungues nômades da Sibéria e corresponde às práticas dos povos não budistas das regiões asiáticas e árticas especialmente a Sibéria (região centro norte da Ásia). Apesar, como assinala Mircea Eliade (1992) da especificidade dessas práticas na região (em especial as técnicas do êxtase dos tungues, Iacutes, mongóis e turco-tártaros), não existe, contudo origem histórica ou geográfica para o xamanismo como conhecido hoje, tampouco algum princípio unificador. Alguns afirmam que o termo procede também do páli samana e por fim do antigo sâncrito sramana, significando “alguém que sabe”, ou possivelmente de um termo eslavônico denotando a prática dos samoiedos da Sibéria, com o sentido de “ficar estimulado”. Antropólogos discutem ainda na definição xamanismo a experiência biopsicossocial do transe e êxtase religioso, bem como as implicações sociais da definição do xamanismo como fato social. É considerada uma tradição equivalente à magia enquanto prática individualizada relacionada aos problemas e técnicas e ciência da sobrevivência cotidiana (agricultura, caça, medicina, etc.) ou ao fenômeno religioso, abstrato, coletivo, normatizador.
sacerdote do xamanismo é o xamã, que geralmente entra em transe durante rituais xamânicos, manifestando poderes incomuns, invocando espíritos, através de objetos rituais, do próprio corpo ou do corpo de assistentes e pacientes. A comunicação com estes aspectos sutis da vida pode se processar através de estados alterados de consciência. Estados esses alcançados através de batidas de tambor, danças e até ervas enteógenas.
As variações "culturais" são muitas, mas em geral, o xamã pode ser homem ou mulher, a depender da cultura, e muitas vezes há na história pessoal desse indivíduo um desafio, como uma doença física ou mental, que se configura como um chamado, uma vocação. Depois disto há uma longa preparação, um aprendizado sobre plantas medicinais e outros métodos de cura, e sobre técnicas para atingir o estado alterado de consciência e formas de se proteger contra o descontrole.

O xamã é tido como um profundo conhecedor da natureza humana, tanto na parte física quanto psíquica.

domingo, 5 de janeiro de 2014

A comunidade de Qumrun

HISTÓRIA DAS RELIGIÕES
A comunidade de Qumran e o pensamento nazoreano!
O nome árabe da localidade é Hirbet Qumrãn. Trata-se de um grupo de ruínas ao pé das montanhas do deserto da Judéia e a 500 metros das margens do Mar Morto, não muito longe de Jericó a 40 quilômetros de Jerusalém. Foi ignorado por muito tempo, mas entrou como protagonista no mundo bíblico a partir de 1947, quando descobriu-se, por acaso, grutas em volta da localidade, que guardavam no seu interior os assim chamados “manuscritos do Mar Morto”.
Graças ao trabalho dos arqueólogos foi possível descobrir que no local residia uma particular comunidade que, como mostram as evidências, quando estourou a guerra entre judeus e romanos, nos anos 60-70 d.C., escondeu, nas grutas próximas, os textos que lhe pertenciam. Por causa dessa descoberta o nosso conhecimento do judaísmo do tempo de Jesus foi enriquecido de forma espetacular. Também o início do cristianismo e o Novo Testamento puderam ser considerados sob novas perspectivas e o texto do Antigo Testamento ganhou um testemunho privilegiado.
Os textos foram encontrados por um pastor árabe, que procurava recuperar uma cabra que tinha se separado do rebanho. Por acaso descobriu um buraco no barranco. Jogou uma pedra e escutou o barulho de vasos de cerâmica que se quebravam. Os pastores, nos dias seguintes, pensavam ter descoberto um tesouro, mas ficaram frustrados, pois acharam apenas alguns pergaminhos amarrados e um pouco fragmentados por causa do tempo. Eles na prática encontraram os primeiros 7 pergaminhos do Mar Morto. Em 1955 o governo de Israel anuncia que comprou todos os 7 manuscritos e que seriam conservados num museu especial, chamado Santuário do Livro, onde estão até hoje.
A descoberta dos manuscritos levou muitos arqueólogos a interessar-se pelo local onde foram encontrados. Já em 1949 teve início uma expedição oficial, que encontrou mais 10 grutas que também escondiam pergaminhos. Depois dessas primeiras descobertas a atenção foi dada às ruínas próximas às grutas, que se pensava fossem somente os restos de uma fortaleza romana. Depois das escavações o parecer é quase unânime: foi ali que nasceram todos os manuscritos encontrados, fruto do lavoro de uma comunidade que viveu naquele local entre os anos 125 a.E.C. e 68 d.E.C.. Os pergaminhos teriam sido escondidos com pressa naquelas grutas, enquanto a suposta comunidade escapava da invasão do exército romano, que se encontrava na Judéia para abafar a revolta judaica.
A origem da comunidade provavelmente tem a ver com conflitos no templo de Jerusalém entre os sacerdotes. O líder da comunidade de Qumrãn, chamado nos manuscritos de “Mestre de Justiça”, era um sacerdote que lutava para implantar uma observância mais rigorosa da Lei nos atos litúrgicos em Jerusalém. Em particular pretendia substituir o calendário lunar com o solar. Isso teria permitido observar de modo mais estrito o sábado, pois desse modo às festas não cairiam nunca nesse dia. Com propostas como esta esse personagem, de quem não se conhece o nome, entra em conflito com os asmoneus, que unificaram o poder religioso àquele político e decide abandonar Jerusalém e vai viver no deserto, com seus seguidores, para preparar-se ao fim do mundo, que julgava estar próximo.
A comunidade provavelmente não era pequena, pois os túmulos encontrados são mais de 1000. Para se sustentar trabalhavam na agricultura nas proximidades das atuais ruínas e dividiam aquilo que possuíam.

Os homens de Qumrãn acreditavam firmemente na assim chamada “doutrina das últimas coisas”: se preparavam para um juízo eminente onde os seus inimigos seriam derrotados e eles, escolhidos por Deus, venceriam, segundo a promessa dos profetas. É nesse contexto que precisa colocar a doutrina sobre o Messias, muito presente nos textos do Mar Morto. Eles acreditavam em 3 messias: um profeta, outro sacerdote e o terceiro rei ou príncipe. Na Regra da Comunidade, um dos documentos encontrados, se diz que o membro da comunidade deve viver sob a Lei até a chegada do profeta e dos messias de Aarão e Israel. Essas três figuras apareceriam antes dos últimos dias, que a comunidade atendia. No documento chamado Testemunho são citadas algumas passagens da Bíblia que sustentam a doutrina messiânica: Dt 18,18-19 – Deus diz a Moisés: suscitarei um profeta como ti entre teus irmãos”; Nm 24,15-17: Balaã prevê que aparecerá um príncipe conquistador; o terceiro texto é a bênção pronunciada por Moisés sobre a tribo de Levi, tribo sacerdotal (Dt 33,8-11).
No fim dos tempos, os homens de Qumrãn atendiam a batalha final na qual eles, os filhos da luz, lutariam contra os filhos das trevas. Portanto a teologia de Qumran é baseada num dualismo exagerado. A pureza cultual e a observância radical da Lei serviam como preparação à guerra final.